segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma partida de futebol... diferente

Após um período tenso de provas e afins, mais um texto pra vocês!

Uma partida de futebol... diferente

Era dia de jogo naquela cidade do interior da Bahia. Como não havia muito o que fazer, descosiderando as diversas opções de botecos, o pessoal se dirigia ao estádio naquela tarde. Outro motivo pelo qual alguns iriam ao estádio era pra saber se o novo narrador era tão bom quanto o anterior, que, infelizmente, havia falecido fazia pouco tempo, de cirrose hepática. Bem verdade, ele nem era tão bom assim, mas depois de cada jogo, ele pagava várias rodadas de cerveja para quem quisesse aparecer - era um aposentado da chefia do Pólo Petroquímico. Além da saudade, uma enorme conta ficou pendurada no nome dele, que deixara de pagar por causa dos remédios e hospitais. Dessa forma, se o novo narrador agradasse, o pessoal aliviaria a conta pra ele. Senão...
- "E vaaaaaaaaaai começar a partida! Fortes emoções, amigos telespectadores!"
Os torcedores se entreolharam, constrangidos. "Ele parece o Galvão Bueno", diziam alguns. "Coitado, acho que ele vai pagar a conta sozinho..."
- "Hoje temos uma decisão importantíssima para os rumos do campeonato, Feirense de Santana e Piauiense de Fortaleza! E os dois times se cumprimentam - olha só, o goleiro do Piauiense deu um tapa na cabeça do zagueiro do outro time! Revide, viado! Não vá me dizer que a moça vai deixar essa passar! É uma bicha mesmo! E os jogadores assumem suas posições, vamos começar o jogo, amigos telespectadores! E o treinador dá um esporro no jogador, bem-feito, fila da puta! Quem mandou ser feio? Acabam de chegar às minhas mãos dois avisos, um diz que o goleiro do Piauiense é irmão do zagueiro do... do... o outro time é tão fuleiro que nem me lembro a zorra do nome! Feirense, isso! O outro aviso diz pra moderar um pouco o tom. Ouviram, viados? Não é porque vocês são irmãos que podem ficar se comendo em campo! Mais respeito com os torcedores, que podiam estar comendo água mas estão aqui, vendo essa merda de jogo! E o centro-avante do Feirense avança, pega um pique da porra, parece uma gazela correndo, tenta um passe pro atacante, mas o zagueiro não deixa, e chuta a canela do atacante! É pra ir na bola, ignorante! O juiz tá de cara feia, não piore sua situação, rapaz... se bem que não foi na intenção, relaxa aí, seu juiz! Mas esse atacante também, parece uma patricinha jogando, é só a bola encostar nele que faz um escândalo! Deixa, seu juiz, ele te paga uma rodada de cerveja depois do jogo! E o zagueiro devolve pro goleiro, e esse chuta pro meio de campo - vá cortar esse cabelo, seu marginal! -, e o meia tenta um passe aéreo pro atacante... ih, muito forte, a bola saiu do campo, e bate na cabeça no gandula! HA, otário! E vá apontar esse dedo pra sua mãe, puto! Dando continuidade ao jogo, o goleiro do Piauiense joga pro zagueiro, mas o adversário está vindo em sua direção... QUE CHAPÉU, AMIGOS TELESPECTADORES! Depois de receber um drible desses, eu me aposentava! Seu juiz, pare de rir, tenha pena desse caboclo, dá um cartão vermelho pra ele sair sem remorso! E o lateral recebe a bola, passa pro meio-campo, e a defesa do Feirense fecha a área do gol... mas peraí, isso não seria impedimento? Porra, cinco jogadores na pequena área, bando de banheirista preguiçoso! Vão aprender a correr! E é falta pro Piauí. O quê, o goleiro vai bater a falta? Que ótimo, temos uma imitação de Rogério Ceni aqui no estádio, palmas pra ele! Momento de tensão, meus amigos... hum, sinto cheiro de frango. E a bola vai no ângulo, o goleiro nem se mexe... E É GOL DO FEIREN... o quê, não! É gol do Piauí! Tanto faz, são dois times fudidos mesmo, série D e merda pra mim é a mesma coisa! E só agora o goleiro foi se mexer, ACORDA, DISGRAMA! Lembrando que gol de goleiro vale dois! Quié, seu torcedor pentelho? Eu sei que isso não é totó, zorra, esses torcedores de timecos de interior são tudo uns ignorantes!"
O que era mais curioso na partida, desconsiderando-se o fato de não estar sendo televisionada, era que todos ouviam a irradiação. Todos mesmo, inclusive os torcedores e o juiz, que, vez por outra, olhavam pra cabine do locutor e trocavam gestos entre si, como se estivessem se preparando pra uma briga. O próprio juiz já tirara uma lixa do bolso e estava afiando uma faca portátil. Mas enfim.
- "E o jogo não está muito emocionante, amigos telespectadores, até baba de pedreiro supera isso! Ninguém xingando a mãe de ninguém, que porra é essa? A única coisa digna de nota foi o goleiro do Feirense ter chutado a bola no saco do atacante adversário! Vocês querem uma sugestão? Que tal colocar outra bola no jogo? E daí que esses putos vão cansar mais rápido, assim que é bom, aí eu terei o que narrar! E o zagueiro do Feirense avança, passa pro meio de campo, o centro-avante assume, dá uma pedalada no lateral do Piauí, imitação barata de Robinho, passa pro atacante, que merda é essa, o atacante está fazendo embaixadinhas? Só tem maluco nessa porra! Ah, entendi, ele queria fazer uma bicicleta! Pena que não deu muito certo, ele caiu de cara na grama, que mané! Mas o chute foi bastante potente, chega atravessou o campo... alguém acorde o goleiro do Feirense, tem algo vindo na direção dele... eita, não entrou. Mas o zagueiro do Piauí corre a toda, atravessa o campo numa velocidade impressionante, chega perto da bola, com cara de quem vai matar alguém... ele vai chutar, ele vai chutar! E o goleiro do Feirense desperta do seu sono de beleza, vai pegar a bola! Ah, vão se fuder, o zagueiro furou a bola e chutou a cara do goleiro! Porra, namoral, vão ser burros assim na casa do caralho, vou ali tomar um cafézinho e já volto!"
Alguns minutos depois, o juiz apitou. Era o fim do primeiro tempo. E, a julgar pela movimentação dos jogadores, não haveria segundo. Não com aquele narrador, pelo menos. Assim, todos se juntaram no vestiário, e discutiram o que iam fazer. Decidiram que o pegariam quando voltasse pra cabine, que ficava acima do portão de entrada. Então, o juiz deu uma forte apitada pra finalizar o intervalo. E não deu outra:
- "Hm, o quê? Já terminou essa porra? Nem terminei de fazer o cafézinho, e ainda ia fazer o show do intervalo com esses bostas, mas nenhum jogou bem mesmo, então foda-se! E o juiz apita, começa o segundo tempo, cambada!... Oxente, cadê esses putos? Já saíram pra comer água? Cadê aquele juiz viado pra passar o cartão vermelho na bunda daqueles folgados?
Ao mesmo tempo, os jogadores, o juiz e alguns torcedores mais exaltados davam a volta no estádio, para chegar na cabine da discórdia. Com o locutor lá dentro, lógico.
- "Amigos telespectadores, parece que os jogadores debandaram! E já que não tem mais o que narrar, vou ler o jornal da cidade pros desocupados que ficaram! Aqui está a manchete, "filho de fazendeiro de renome morre de cirrose"; grande merda, como se ninguém soubesse o que ia acontecer... mas que diabo, uma horda de bárbaros invadiu a minha cabine! Estão vindo em minha direção, socorro! Alguém me ajude, por fav-"
Silêncio. Pouco depois, todos os que tinham sumido voltaram ao campo para continuar a partida, como se nada tivesse acontecido. Para encurtar a história, deu 2 x 1 pro Feirense. E, como de costume, foram todos encher a cara no bar da esquina. E após algumas (várias) grades, o garçom perguntou como eles iriam pagar. Todos riram com vontade. O juiz respondeu:
- Lembra do locutor anterior? No testamento, deixou tudo pro irmão, principalmente o dinheiro da aposentadoria, que ele se recusava a usar! E adivinhe quem é o tal irmão? Aquele puto ali! - e apontou pro atual narrador, amarrado com uma corda grossa, sob os pés do zagueiro do Feirense, esbravejando sobre o tamanho da conta do bar.