quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Uma tarde no psiquiatra - especial de Natal

Bem, o que posso dizer? É só uma mensagem tosca de natal, algo como aqueles textos prontos dos cartões de natal, só que um pouco mais elaborado!
Antes ia por scrap, mas agora que tenho um blog, não tenho mais necessidade nem saco pra fazer isso. Muito mais fácil pra mim mandar pra vocês!
Só posso esperar que gostem! Aproveitem!


Uma tarde no psiquiatra - especial de Natal

- E essa agora, meu Deus?

O doutor não acreditava na ligação que acabara de receber. Um maluco tinha ligado pedindo para reservar TODO o dia 24 de dezembro, pra uma terapia intensiva.

- Mas senhor, esse pedido está fora de cabimento, não tenho tantos horários disponíveis para esse dia!
- Você acabou de dizer que não tinha nenhum paciente, que todos estavam viajando.
- Err, bem... é verdade, mas mesmo assim!
- Se o problema é o preço, pagarei duas vezes o preço normal, de forma particular. E ainda pago um almoço no Outback mais próximo.
Propostas assim realmente mexiam com o brio do doutor. Ainda mais considerando-se a última vez que comera no Outback.
- Huuum. Diga-me o seu telefone, ligarei quando decidir.
- Fale sério, homem. Você não tem paciente pra atender, sua secretária gostosa está de férias, e acho que ficar organizando a papelada que você deixou de lado o ano inteiro não é exatamente a melhor coisa do mundo. Você está oficialmente sem porra nenhuma pra fazer.
- Ok, você venceu. Diga quando chegará, para eu me organizar.

A rigor, ele sempre dava um jeito de não estar no consultório nessa época do ano. Mas essa exceção parecia ser uma boa. "Não recebo merda nenhuma dos convênios mesmo. Além de um almoço no Outback!"
Nesse momento de devaneio, a campainha toca e a porta do consultório se abre. Um senhor, com uma camisa vermelha com detalhes brancos e uma calça jeans, além de óculos escuros e uma espessa barba branca adentra a sala. Não por acaso, o doutor o achou vagamente familiar.
- Torcedor do Bahia, meu senhor?
- Deus me livre. Tudo bem, doutor?
- Vamos indo. Vejamos, se está aqui, deve ser por um bom motivo. Por sinal, seu nome é?...
- Claro, doutor. O nome é Noel, mas as pessoas costumam me chamar por Papai. Papai Noel.

O doutor sabia que o conhecia de algum lugar. "Que cacete, era só o que me faltava! Meus pacientes são um bando de sequelados! Porque eu não sou como meus outros colegas, que só têm pacientes doidinhos, num nível aceitável? Depois daquele moleque retardado, agora me vem esse véio caduco achando que é Papai Noel!"
- Papai Noel, meu senhor? Isso é alguma brincadeira?
- Não, é sério, olha aqui a carteira de trabalho.
Realmente, estava escrito: "Fabricante e Comerciário de Artigos Diversos".
- Mas desde quando Papai Noel comercia os presentes?
- Ah, foi uma merda que assinaram aí quando eu estava fazendo curso no Senac. Enfim, apresentações feitas, vamos começar a terapia?
- Ô, que jeito...

- Ultimamente, os duendes estão enchendo muito o saco com o salário. Eu já disse que foi por causa da crise que tive que dar um corte com despesas inúteis, tipo transporte. Porra, eles moram lá mesmo, ao lado da fábrica de brinquedos, não precisam nem pegar ônibus!
- E qual foi a justificativa deles?
- Eles ficam dizendo que o espaço de 50 metros que separa o alojamento e a fábrica é intransponível no frio, que precisam de um veículo adequado, blábláblá. Quando me ofereci pra construir um túnel, eles chiaram pra caralho, disseram que iam reclamar no sindicato dos duendes, só pra lembrar que não existia, e que eles estavam malvistos no sindicato dos anões, só por causa de um questionamento sobre a existência de anãs. Eles ficaram putos, reclamaram pra cacete, alegando que anões não se reproduziam assexuadamente, coisa e tal. Veja se tem cabimento, doutor.
- De forma alguma.
- Daí, foi tanta reclamação que acabei apelando. Disse que se eles não parassem de encher meu saco - não literalmente falando -, eu ia terceirizar a produção, demitindo todo mundo e chamando chineses pra trabalhar no lugar deles.
- Nossa. Mais alguém reclamou?
- Ah, tiveram as renas, mas a discussão não foi muito longe; a Grécia, na pendenga que tá, estava com uma liquidação fantástica de animais fantásticos, incluindo cavalos pégasus. Foi o suficiente pra acabar com a pseudo-greve.
- Entendo. Bastante sagaz. Mas tem uma coisa que não entendi; se é o senhor que fabrica seus produtos, como é que tem "Made in China" em praticamente todos?
- Sabe como é, matéria-prima na China é muito mais barata. Não vou mentir que faço revenda pra eles. Ganho a minha parte, mas a única exigência deles é colocarem essa frase maldita em tudo. Putos. Ao menos meus brinquedos têm garantia.

- Me responda, Papai Noel. Afinal de contas, como é que o senhor consegue viajar o mundo inteiro e entrar escondido em tantas casas em apenas uma noite?
- Ah, meu rapaz. Confio no seu código de ética, vou te contar um segredinho. Na verdade... eu sou um ninja.
- Um ninja? Comassim, véi?
- Seja realista: como um velho da minha idade poderia entrar despercebido em tanta casa, passando por cima de cachorros e gatos homicidas, atravessar lasers de segurança e arames farpados enferrujados, enganar porteiros e afins? Só sendo muito ninja!
- Ahn, tá bom. Só falta dizer que o vermelho das suas roupas é do sangue das crianças que tentam encontrar com o senhor.
- Como foi que você adivinhou?
- O_O
- Pois é, tem o Ninja Codex, que, entre outras coisas, me obriga a matar quaquer criança que tente me ver na calada da noite deixando presente debaixo da árvore. Minha roupa era branca, mas acabou sujando tanto que acabei desistindo e deixando como estava. Pior era quando não deixavam o leite com biscoitos.
- Meldels.
- Mas está tudo certo, prefiro acreditar que você não sairá contando essa história pro mundo. Só se você colocasse, sei lá, num blog de besteiras, mas talvez não levassem tão a sério.
- Bote fé, Noel. Bote fé.

- E aquele patrocínio bacana, hein?
- Porra, nem me fale. Até que rolava um ou outro merchan antes, mas nada que supere o da Coca-Cola. Cacete, você não tem noção! Lembro de uma vez, a filial do Alasca enviou lá pro Pólo Norte um carregamento de galões de 20 litros! Nem eu seria capaz de dar um presentão desses! E era um tal de nego deixando o trabalho só pra beber um pouco, parecia até a fábrica da Ambev!
- Porque da Ambev?
- Não sabia? Lá, eles param o serviço vez por outra pra ir numa salinha cheia de refrigerantes! Melhor que isso, só se tivesse cerveja na geladeira; iam fazer uma happy-hour sem sair do trabalho!
- E lá na sua fábrica não deu problema com isso não?
- Porra nenhuma! Dei uma rasteira naqueles duendes descarados e coloquei copinhos de café ao lado do filtro! Nunca vi tanto arranca-rabo por causa de copo! Teve outra vez, isso bem no início, a matriz me arranjou a fórmula, por ter ajudado nas vendas da Coca! Tinha um duende na ocasião que tinha trabalhado com sistemas hidráulicos, aí eu botei o sacana pra montar um bebedouro de refrigerante!
- Um bebedouro?
- É, tipo aqueles que você vê em colégios! Eram vários, um pra cada sabor, foi lindo. Só faltou o bebedouro de tubaína, mas tudo bem. Até pensei em oferecer a alguma criança que tenha se comportado excepcionalmente bem ao longo do ano, mas depois que soube de um colégio aí adaptou a idéia na sua gincana, desisti. Seria perigoso. Mas o patrocínio é fodão! Todo ano faço um comercial pros caras, e eles retribuem com algum presentinho maneiro. Às vezes é um generoso depósito na conta do banco, mas ano passado mesmo me deram uma garrafinha de diamante em cima de um pedestal, que tinha escrito: "Pelos serviços prestados". Mas tenho a ligeira impressão de que o presidente estava meio quebrado, não tinha idéia do que me enviar, e acabou me mandando alguma coisa da mesa dele, não tinha meu nome escrito...

E nisso o tempo foi passando...
- Papai Noel, olha a hora! Ficamos aqui de resenha, nem vi o tempo passar! Acho que o senhor precisa "fazer suas entregas"!
- Por que essas aspas? Estou com a impressão de você não acreditou em uma palavra que eu disse.
- Veja bem, tem o limite do aceitável pra certas coisas...
- Venha comigo que você irá entender tudo. Seu carro está no conserto mesmo, você iria pegar um ônibus se não fosse por minha causa.
- Odeio quando as pessoas jogam esse tipo de coisa na minha cara.

Eles desceram, e em vez de seguir para o estacionamento, os dois foram para um beco escuro, onde havia uma enorme lona preta cobrindo algo bem grande.
- Seu possante, Noel?
Ele nada respondeu, só puxou a lona pra revelar...
- CA-RA-LHO, RENAS DE VERDADE! No zoológico daqui não tem essas coisas, só tem veadinhos!
- Sinistro, não é? Entra aí, que eu te dou uma carona!
- VÉI, a rena da frente realmente tem o nariz vermelho!
- Deixe de viadagem e sobe aí no trenó que vou dar a partida!
Mas nada de as renas se mexerem.
- Ih, acabou a gasolina da charrete. Renas filhas das putas, terei que apelar pro chicote!
- E aquele papo do bom velhinho, generoso e paciente, hein?
- É marketing! Essas renas adoram uma moleza, só trabalham uma vez no ano, tenho que pegar pesado de vez por outra!
E, após muita chicoteação, as renas voaram, ainda que de má vontade. Enquanto o doutor se maravilhava com a vista e os presentes voando, Papai Noel começou a falar:
- Sabe, doutor? O senhor é uma boa pessoa no íntimo, só precisa controlar essa sua escrotidão com seus pacientes. Além do mais, nem tudo na vida é receber pacientes que pagam particular. Repense melhor sua atitude, tenho certeza que você se tornará um profissional melhor. Pense nisso.
- Poxa Noel, eu sei, mas às vezes as coisas não são tão simples...
- Apenas pense no que disse. Bon voyage! - tendo dito isso, apertou o botão do assento ejetor. O doutor deu um berro de furar os tímpanos. - Não se preocupe, tem um pára-quedas embutido, só não sei se a vistoria dele está em dia! Feliz natal, doutor!
E ele foi caindo aos poucos, e nada de o pára-quedas abrir. Próximo do chão, o doutor sentiu um solavanco, e perdeu a consciência. Pelo menos o pára-quedas tinha abrido.

No dia seguinte, o doutor acorda sobressaltado, em sua cama.
- Porra, que pesadelo escroto. Sonhei que atendia um maluco que se achava o Papai Noel. Que coisa ridícula - e então ele colocou os óculos e viu um cheque estranho em cima do criado mudo, curiosamente no valor duplicado de um dia inteiro de consultas. Ele não acreditou.
- Será que aquele viado era mesmo o Noel? Marveja! Com esse dinheiro, posso muito bem aumentar o consultório, melhorar a qualidade do atendimento... ou posso fazer um cruzeiro pelo Caribe. Ah, fodam-se os pacientes, sou mais eu!

Nesse momento, um forte vento adentra o quarto, tirando o cheque da mão do doutor e atirando-o pela janela.
- NÃÃÃÃO, DESGRAMA! Eu prometo, farei uma reforma no consultório pros pacientes!
Instantaneamente, o vento que soprava pra baixo inverteu sua direção, levando o cheque de volta para a janela, que pousa suavemente em cima do criado mudo.
- Bosta. Acho melhor eu tomar vergonha na cara e cumprir a promessa. Feliz natal pro senhor também, Noel.

É isso aí, povo, feliz natal pra vocês!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Uma tarde no psiquiatra nº 03

Depois de mil anos sem postar (dois meses), o blog IS BACK TO ACTION, BABY!
Enfim, continuemos com a série 'Uma tarde no psiquiatra'. Enjoy!

Uma tarde no psiquiatra nº 03

- E aí maluco, o que você manda hoje?
- Doutor, não seria antiético pro senhor, um psiquiatra de respeito, chamar seu paciente de 'maluco'?
- Mas é exatamente disso que eu trato, de maluco. Por tabela, você é maluco!
- ...
- Deixe de viadagem, tenho um jogo do Flamengo pra assistir logo mais.
- Estava me sentindo meio... literário hoje, queria falar sobre isso.
- Fala que eu te ouvo.
- Sei lá, estava aqui imaginando com qual estilo literário eu me identificaria melhor.
- Espero honestamente que você só esteja se referindo aos estilos brasileiros mais recentes, porque, convenhamos, você aí, todo dependente de remédios tarja preta, não se daria muito bem com o bucolismo do Arcadismo. A não ser que você procure as matérias-primas direto no mato.
- É, tem razão. Tem o Romantismo do início do século XIX... uma vida regada a amores, desilusões, algumas tragédias, mas com óbvios finais felizes e abruptos. Mas não sei se seria legal viver sentindo saudade da terrinha, onde tem palmeiras e onde canta o sabiá.
- Sem contar que você não teria muita paciência pra lidar com mocinhas pentelhas que te enrolariam por meio livro só dar permissão de segurar a mão dela, e outro livro pra dar um beijinho na bochecha.
- É, tem razão. Mas eu ia curtir que lessem meus poemas num teatro qualquer da Corte!
- Ah, claro. Só não posso dizer que sua vida seria muito longa, você provavelmente iria morrer aos 20 e poucos e de tuberculose.
- Verdade. Temos mais o quê?
- Vejamos... tem o Parnasianismo.
- O senhor tem exemplos de gente assim?
- Ah, vários. Aqueles empresários que precisam de uma secretária, e têm que escolher entre uma inteligentíssima, que fala cinco idiomas, mas é feia de doer, ou uma que copiou e colou um modelo de currículo da internet, porque nem isso sabe fazer, mas é gostosa pra caralho.
- Mas o que isso tem a ver?
- Simples. A maioria dos empresários, nessa situação, tende a ser parnasianista; isto é, prefere a forma ao conteúdo.
- Fale sério doutor, o que você faria nessa situação?
- Eu certamente não seria realista, que seria a outra opção do empresário.
- E como seria viver como um realista?
- Rapaz, repare só. Você ia viver pra falar mal de tudo e todos, como o mundo está errado, como a escravidão está fudendo com o país, muito pobre pra pouco rico, mas uma hora ia encher o saco.
- Porquê?
- Porque ser realista não enche barriga de ninguém, sem contar que você ia pegar fama de pentelho resmungão. Todo mundo cheio de problema, de conta pra pagar, e você ainda fica enchendo o saco alheio fazendo propaganda da corrupção na Inglaterra e o calote econômico da Grécia. Faça o favor.
- Ainda tem o Simbolismo.
- Esqueça. Você ia falar um monte de besteira da forma mais metaforizada possível, de uma forma tal que ninguém te entenderia. Você ia terminar passando uma imagem de chato incompreendido, tipo Jim Morrisson.
- E o Dadaísmo?
- Bobagem. Iam pensar que você é um débil-mental que só fica falando monossílabos em sua maioria, e frases desconexas, enquanto na sua ilusão você estaria fazendo crítica social. Me poupe.
- Que merda, doutor! Não tem nenhum estilo literário que eu poderia me identificar?
- Tem o Modernismo, que na minha opinião é o melhor de todos. A arte de quem conhecia o povo, fazendo arte para o povo, ignorando ideais europeus e fazendo algo mais autêntico, mais brasileiro, de uma forma que os intelectuais ignoraram a princípio, porque não tinha refinamento, glamour, personagens virtuosos que eles pudessem se identificar; em vez disso, personagens populares, que agiam como tal, refletindo mais a essência do próprio brasileiro.
- Trocando em miúdos, o que isso tudo quer dizer?
- De uma forma reducionista, quer dizer que tinha o povão falando palavrão nas histórias. Até a próxima consulta.