Antes de mais nada, gostaria de dedicar esse texto à minha amiga SÁFIRA (com acento mesmo), que aniversariou há precisamente um mês, e entrego esse texto com atraso!
Espero que gostem, e principalmente você, Saf!
Uma consulta no médico
Hereditariedade é uma merda. O cara, vivendo numa boa, fazendo a corridinha dele num fim de semana qualquer, de repente ficou com a vista escurecida e caiu no chão. No pronto-socorro, ele finalmente acorda, com a mulher e o pai ao seu lado. Este, por sua vez, conta-lhe o segredo, guardado por tanto tempo: ele tinha um tipo de hipertensão levemente acentuado, assim como toda a família por parte de pai.
- Pô, pai! Como é que o senhor nunca me contou isso? - perguntou Augusto, o cara do início do texto.
- Bem, filho... não tinha como saber se você teria ou não. O último que teve foi seu bisavô, que teve um infarto pouco antes de ganhar a São Silvestre de 44. Foi tão triste, ninguém parou pra ajudá-lo, e ele só conseguiu chegar em ducentésimo quinto se arrastando.
- Tá, mas o senhor e meu avô nunca sentiram nada?
- Até que não, eu e ele também competimos várias vezes, e nunca teve nada. A não ser da vez que seu avô desmaiou na largada em 79, mas suspeito que foi uma rabada que ele comeu no dia anterior.
- Caramba, o que eu faço agora? Nunca mais vou poder comer carne seca na vida?
Então a mulher dele, em silêncio até então, disse:
- Não se preocupe, Guzinho. Já marquei com um cardiologista pra ver o seu estado.
- Guzinho, é? Bonito apelido, filho. É assim que a Ivana te chama na cama?
- Silêncio, coroa. Ou você não recebe mais sua aposentadoria.
- Ok, você venceu.
Então, duas semanas depois:
- Amor, quer que eu entre com você no consultório?
- Não precisa... e eu não era Guzinho até anteontem, quando meus pais vieram nos visitar?
- Ah, aquilo foi só pra te envergonhar na frente deles.
- Então tá. Você fica aqui fora.
Adentrando o consultório, Augusto deparou-se com um médico nos seus 50 anos, cabelo rareando. Era troncudo, e dava uma impressão de vitalidade. E de algo mais, que ele não soube dizer.
- Boa tarde, doutor.
- Boa tarde, meu jovem! Como vai esse coração? Ah, espera aí... se estivesse bom, você não estaria aqui!
Agora Augusto soube dizer o que pensara. Ele não só tinha cara de sacana como o era.
- Que cara é essa, meu jovem? Está com um princípio de infarto?
- Não, doutor Ado... na verdade, é o seguinte... - e expôs a situação ao médico.
- Deixe-me ver se entendi. Toda a sua família por parte de pai é hipertensa, e só te contaram isso agora, quando teve uma complicação?
- Exatamente.
- Ha! Provavelmente pra você não ter um ataque antes da hora!
- ...
- Sossegue, meu rapaz! Marcarei uma série de consultas, pra ver se um tratamento resolve!
- Série de consultas? E quantas seriam?...
- Ah, quantas forem necessárias!
- Oh, céus...
E assim foram transcorrendo as consultas, sempre no mesmo tom.
- Faça um exame de sangue, mas não veja o resultado. Pode ser demais pro seu coração.
- Se eu fizer um corte aqui, o sangue vai sair de uma forma tal que vai esguichar na sala de espera. Olhe a pulsação!
- Você, quando está envergonhado, fica com a cara vermelha ou continua branca desse jeito? Porque eu tenho a ligeira impressão de que seu coração não realizaria essa façanha!
- Seu Augusto, me responda com sinceridade, sua mulher é fiel? Talvez seu coração não encare uma dor de corno!
- Olha Augusto, quando você ficar velho, não recomendo o uso de Viagra. O sangue iria todo pro pênis e não sobraria mais nada pra ser bombeado!
- Diz aí, pra você, como é a sensação de o sangue subir à cabeça e desmaiar por causa disso?
Até que o dia da consulta final chegou, após seis meses. Augusto não escondia sua felicidade. Mas o doutor parecia meio resignado.
- É, seu Augusto, parece que você enfim se livrará de mim! A partir de agora é só seguir a medicação e estará tudo em ordem!
- Que ótimo, doutor. Mal consigo conter minha felicidade - disse Augusto com um sorriso cínico.
- Pois bem, você atenuou bastante o seu problema. Vamos ver se o mesmo acontece comigo.
- Porque isso, doutor? Qual o caso?
- Parece que minha próstata anda capengando. Só espero que isso não se agrave muito daqui pra frente.
- Huuuum, entendo. Obrigado pelo tratamento, doutor Ado.
- Que é isso, meu filho. Vá pela sombra, e não se excite demais!
- Não se preocupe, vou me lembrar disso.
O que ninguém esperava é que Augusto desistisse de sua consultoria em favor de uma carreira na proctologia. Era realmente estranho. E ele ascendeu rápido, oito anos depois de formado, já tinha consultório próprio, com o qual conseguiu certo renome. Atendia a todos com a mesma sobriedade, mas interessou-se um senhor, cardiologista aposentado, com problemas na próstata.
- Bom dia, doutor Augusto. Como vai?
- Vou bem, doutor Ado, muito bem...
- Espera aí, como sabe que sou doutor?... Ah, lembro de você! O garoto do coração fraco!
- Esse mesmo, o que você costumava sacanear toda consulta.
- Ora, vamos. Era só pra descontrair, coisa-à-toa.
- Claro que sim. Mas realmente não tinha como esquecer essas coisas-à-toa. Tanto que foi por causa delas que virei proctólogo.
- O que é isso, meu rapaz... esqueça isso, é coisa do passado.
- Já esqueci, já esqueci... não se preocupe. Agora vamos ao seu exame de toque.
- Ei, peraí! Hoje é só uma consulta rotineira! E pra quê você está colocando essa luva de ferro?
- Calma aí, doutor Ado. Se o senhor não tivesse nada, não estaria aqui. E essa belezinha aqui amansa o paciente rapidinho, dando tempo de sobra pra procurar o problema aí atrás. Agora, é só ter paciência, que nesses seis meses de tratamento, cuidarei dessa sua próstata! - e deu uma risada maníaca.
- Oh, céus...
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