terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Um dia dos namorados no interior

Meio fora de época, eu sei. Mas quem disse que me importo?


Um dia dos namorados no interior

11 de junho, um interior desses da vida. Um dia normal, como qualquer outro, naquela cidadezinha. Não acontecia muita coisa por ali; a última coisa mais excitante fora um duelo de pistoleiros em plena praça pública em dezembro passado. Mas a grande novidade era o mini-shopping que tinha sido aberto recentemente próximo à praça. E era mini mesmo: só algumas lojas de tralhas e bijuterias, além do cinema. E exatamente por isso estava cheio, e estava passando um romance típico: um jovem casal se apaixona em uma festa, mas os pais são contra o relacionamento dos dois, e, depois de muita enrolação, os dois pombinhos acabam morrendo "em nome do amor". Enfim, nada que você já não tenha visto antes.
Pois bem. Havia um casal em especial assistindo o filme. Quer dizer, ela não tirava o olho da tela, enquanto que ele mais cochilava que assistia. E quando terminou, ambos saíram, com ela comentando cada detalhe do que assistira:
- Ai Fabiano, tu viste aquela parte que o mocinho faz uma serenata pra ela na sacada, sobre a lua cheia? Foi tão bonito! Porque que tu não fazes igual, hein?
- Ô Neusinha, eu bem que tentei uma vez, mas o teu pai soltou os cachorros em cima de mim nesse dia...
- Ah, é... tinha me esquecido. Mas tu viste aquela parte que ele entrega um buquê de rosas à mocinha? Ainda tinham espinhos, e ela se cortou! Quando ela estava pra dar um esporro, ele disse umas palavras tão bonitas! Tu lembras o que foi?
- Ahn... acho que foi, "ser ou não ser, eis a questão".
- Não, bobo! Foi... ah! "Essas rosas com espinhos simbolizam você. Mesmo sendo bela e admirável, a rosa ainda possui defeitos. Assim como você. Mas são suas qualidades, boas e ruins, que te fazem ser o que é, a mulher que eu amo."
- Que bonito... - ele não tinha entendido tudo, mas achou melhor não demonstrar.
- Não é? Tu sabes que dia é amanhã, Fabiano?
- Huum, seu aniversário já passou... ah sim, é dia dos namorados!
- Isso... e você podia fazer que nem o moço do filme?
- O quê, me matar de amor por você?
- Não, besta. Me dar um buquê de rosas, que nem no filme!
- Ah, tudo bem! Amanhã apareço em sua casa com o presente!
- Tudo bem, estarei esperando. Tchau, Fabiano.
Neusinha deu um beijo nele e foi embora, feliz da vida. Mas Fabiano não parecia tão satisfeito assim; ele tinha acabado de lembrar que não havia floriculturas na cidade. Mas nem tudo é um mar de rosas, a promessa já tinha sido feita, iria procurar pelas flores.
Primeiro ele pensou na casa da vizinha. Nada. Porém, quando estava saindo, notou que havia um canteiro de rosas brancas, próximo ao muro. Imaginando que sua namorada não se importaria, saltou o muro pra pegar algumas, discretamente, para a vizinha não ver. Entretanto, o gesto não passou despercebido à mesma, que tratou de soltar os cachorros em cima de Fabiano, que saiu correndo rua abaixo com os três cães no seu pé.
Depois da correria, Fabiano tentou procurar em outros lugares, como na fazenda de seu Barnabé, que tinha várias flores cultivadas por sua esposa. Depois de um desentendimento, que infelizmente envolveu a mãe do dono da fazenda, mais uma vez ele saiu correndo com vários cachorros em seu encalço. E assim foi passando a tarde, com Fabiano caçando flores pela cidade inteira e não encontrando. E com cachorros correndo atrás dele. Havia a possibilidade de ir à capital, mas daria muito trabalho; sem contar que a gasolina sairia por sua conta, já que seu pai era o mão-de-vaca mais conhecido da região.
Então, frustrado, ele voltou pra casa, pensando nas palavras que o cara tinha dito no filme. De tanto pensar, acabou deixando as rosas de lado. Depois de muito pensar, veio a luz. Finalmente tinha compreendido o significado das palavras, e pensou em um presente adequado para a situação.
No dia seguinte, Neusinha estava no banho quando a campainha tocou. Prontamente ela se arrumou, esperando um lindo buquê de rosas. Quando abriu a porta, lá estava Fabiano, todo arrumado, e com as mãos às costas. Após um momento de silêncio, ele disse:
- Bem... feliz dia dos namorados, Neusinha.
- Pra você também, meu amor. O que é isso que você tem aí atrás?
- Olha, você lembra das palavras que o cara disse ontem, no filme? Pois bem, pensando nisso, te dou esse presente - e entregou uma rapadura a ela.
- Uma rapadura, Fabiano?! Isso é ridículo! O que isso tem a ver com as rosas, com aquelas palavras?
Ele estava esperando por isso. E expôs seu pensamento, alcançado após horas de meditação e reflexão:
- RAPADURA É DOCE, MAS NUM É MOLE NÃO.

sábado, 17 de dezembro de 2011

História do cotidiano

Uma palavra: FÉÉÉÉÉRIAS!

Sem mais.


História do cotidiano

Época de terceiro ano certamente é um martírio pros estudantes; vestibular, cursinho, provas do colégio, tudo na mesma época. E pra Artur, ainda tinha mais um problema:
- VÉÉÉÉI, o Iron Maiden vem esse ano pro Brasil!
- De novo? - perguntou Antônio, o único cara no colégio inteiro que sabia quantas camisas do Iron Artur tinha.
- VÉÉÉÉI, eu preciso ir pra essa porra! Quem sabe se eles vão aparecer ano que vem aqui?
- Porra, todo ano eles vêm pra cá. Já virou rotina.
- É, mas eles sempre tiveram planos de encerrar a carreira com o 15º álbum, e já chegaram a esse número!
- É sério que eles já lançaram 15 discos? Só não tá pior que o Calcinha Preta!
- Sei que eu preciso ir a São Paulo. Fodam-se as provas, sempre tem a segunda chamada!
- O show de São Paulo é dia 15 do mês que vem, não é? No meio da semana de provas!
- Prova eu posso fazer o resto do ano, show do Iron só tem uma vez no ano! E pode ser o último! Não posso morrer sem ver um show deles!
- Tem dinheiro, então gaste... embora eu duvide muito que seja o último show deles aqui.

(Nota do redator: de fato, não foi o último ano deles aqui, eles vieram no ano seguinte, e no ano seguinte a esse também.)

Pois bem, o tempo passou, Artur de fato foi pro show do Iron em São Paulo, as provas passaram e ele faltou todas, naturalmente. Mas na primeira segunda feira depois do show, as provas perdidas certamente eram a última coisa na mente dele; quando chegou ao colégio, estava com um ar etéreo, com uma expressão de satisfação no rosto, de quem teve orgasmos múltiplos a noite inteira. E claro, com uma camisa do Iron Maiden.
- Pelo visto o show foi bom, hein? - perguntou Antônio assim que o viu.
- Não tenho palavras pra descrever. Ainda estou tentando recordar todos os momentos pra cristalizar em minha memória.
- Como eu imaginava. Bem, ninguém aqui ficou surpreso que você tenha faltado, mas aparentemente a coordenadora ficou. Ela tava te chamando pra conversar na sala dela.
- Que merda, ainda tem essa, né? Vou dar o migué nela, já tenho uma história na cabeça.
- Você que sabe. Por sinal, essa camisa é nova, não é?
- Ah, verdade. Comprei depois do show, não lembrava de ter nenhuma com essa estampa aqui. Enfim, vou passar na sala da coordenadora agora, deseje-me sorte!

Acontece que tinha um detalhe importantíssimo que Artur não tinha percebido, e Antônio só viu quando ele já estava entrando na sala.
- ARTUR DISGRAÇA, TIRA ESSA CAMISA, PORRA!
Mas era tarde.

- Poxa coordenadora, eu entendo perfeitamente que as provas são importantes, mas não tive como evitar.
- Eu realmente gostaria que você entendesse que, apesar de ser terceiro ano, você ainda tem suas obrigações com o colégio. O fato de você ter faltado três provas só demonstra a sua displicência.
- Eu sei. Mas tive meus motivos, não estou passando por um bom momento em casa, a situação está difícil. Fico até sem jeito de conversar sobre isso.
- Compreendo. Sendo o caso, o encaminharei para a psicóloga. Mas fica o aviso, evite faltar tantas provas sucessivas, não será bom pra você.
- Obrigado, coordenadora. Bom dia pra senhora. - e se encaminhou para a porta. Por algum motivo, não conseguiu abrir.
- Tem algum problema com essa porta?
- Não, é que ela abre para dentro, mas tem que fazer um pouco de forç... Artur, o que é isso escrito nas suas costas?

E foi só aí que a ficha caiu. Nas costas da camisa estava escrito: "Iron Maiden - São Paulo, 15/03/2009 - EU FUI!"
Não por acaso o mesmo dia em que as provas começaram.