Meio fora de época, eu sei. Mas quem disse que me importo?
Um dia dos namorados no interior
11 de junho, um interior desses da vida. Um dia normal, como qualquer outro, naquela cidadezinha. Não acontecia muita coisa por ali; a última coisa mais excitante fora um duelo de pistoleiros em plena praça pública em dezembro passado. Mas a grande novidade era o mini-shopping que tinha sido aberto recentemente próximo à praça. E era mini mesmo: só algumas lojas de tralhas e bijuterias, além do cinema. E exatamente por isso estava cheio, e estava passando um romance típico: um jovem casal se apaixona em uma festa, mas os pais são contra o relacionamento dos dois, e, depois de muita enrolação, os dois pombinhos acabam morrendo "em nome do amor". Enfim, nada que você já não tenha visto antes.
Pois bem. Havia um casal em especial assistindo o filme. Quer dizer, ela não tirava o olho da tela, enquanto que ele mais cochilava que assistia. E quando terminou, ambos saíram, com ela comentando cada detalhe do que assistira:
- Ai Fabiano, tu viste aquela parte que o mocinho faz uma serenata pra ela na sacada, sobre a lua cheia? Foi tão bonito! Porque que tu não fazes igual, hein?
- Ô Neusinha, eu bem que tentei uma vez, mas o teu pai soltou os cachorros em cima de mim nesse dia...
- Ah, é... tinha me esquecido. Mas tu viste aquela parte que ele entrega um buquê de rosas à mocinha? Ainda tinham espinhos, e ela se cortou! Quando ela estava pra dar um esporro, ele disse umas palavras tão bonitas! Tu lembras o que foi?
- Ahn... acho que foi, "ser ou não ser, eis a questão".
- Não, bobo! Foi... ah! "Essas rosas com espinhos simbolizam você. Mesmo sendo bela e admirável, a rosa ainda possui defeitos. Assim como você. Mas são suas qualidades, boas e ruins, que te fazem ser o que é, a mulher que eu amo."
- Que bonito... - ele não tinha entendido tudo, mas achou melhor não demonstrar.
- Não é? Tu sabes que dia é amanhã, Fabiano?
- Huum, seu aniversário já passou... ah sim, é dia dos namorados!
- Isso... e você podia fazer que nem o moço do filme?
- O quê, me matar de amor por você?
- Não, besta. Me dar um buquê de rosas, que nem no filme!
- Ah, tudo bem! Amanhã apareço em sua casa com o presente!
- Tudo bem, estarei esperando. Tchau, Fabiano.
Neusinha deu um beijo nele e foi embora, feliz da vida. Mas Fabiano não parecia tão satisfeito assim; ele tinha acabado de lembrar que não havia floriculturas na cidade. Mas nem tudo é um mar de rosas, a promessa já tinha sido feita, iria procurar pelas flores.
Primeiro ele pensou na casa da vizinha. Nada. Porém, quando estava saindo, notou que havia um canteiro de rosas brancas, próximo ao muro. Imaginando que sua namorada não se importaria, saltou o muro pra pegar algumas, discretamente, para a vizinha não ver. Entretanto, o gesto não passou despercebido à mesma, que tratou de soltar os cachorros em cima de Fabiano, que saiu correndo rua abaixo com os três cães no seu pé.
Depois da correria, Fabiano tentou procurar em outros lugares, como na fazenda de seu Barnabé, que tinha várias flores cultivadas por sua esposa. Depois de um desentendimento, que infelizmente envolveu a mãe do dono da fazenda, mais uma vez ele saiu correndo com vários cachorros em seu encalço. E assim foi passando a tarde, com Fabiano caçando flores pela cidade inteira e não encontrando. E com cachorros correndo atrás dele. Havia a possibilidade de ir à capital, mas daria muito trabalho; sem contar que a gasolina sairia por sua conta, já que seu pai era o mão-de-vaca mais conhecido da região.
Então, frustrado, ele voltou pra casa, pensando nas palavras que o cara tinha dito no filme. De tanto pensar, acabou deixando as rosas de lado. Depois de muito pensar, veio a luz. Finalmente tinha compreendido o significado das palavras, e pensou em um presente adequado para a situação.
No dia seguinte, Neusinha estava no banho quando a campainha tocou. Prontamente ela se arrumou, esperando um lindo buquê de rosas. Quando abriu a porta, lá estava Fabiano, todo arrumado, e com as mãos às costas. Após um momento de silêncio, ele disse:
- Bem... feliz dia dos namorados, Neusinha.
- Pra você também, meu amor. O que é isso que você tem aí atrás?
- Olha, você lembra das palavras que o cara disse ontem, no filme? Pois bem, pensando nisso, te dou esse presente - e entregou uma rapadura a ela.
- Uma rapadura, Fabiano?! Isso é ridículo! O que isso tem a ver com as rosas, com aquelas palavras?
Ele estava esperando por isso. E expôs seu pensamento, alcançado após horas de meditação e reflexão:
- RAPADURA É DOCE, MAS NUM É MOLE NÃO.
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