sábado, 24 de abril de 2010

Formando uma banda

Texto novo, só isso!

Formando uma banda

Eram dois amigos de infância; estudaram no mesmo colégio e tal. Conheciam-se relativamente bem, e por isso se sacaneavam com freqüência. É claro, tinham suas diferenças: um era mais caseiro, costumando ler livros o dia inteiro; o outro era, digamos, da vida, passava o dia inteiro na rua – “pegando mulher, lógico!”, era o que dizia. Mas ambos tinham um gosto comum para música. Na verdade, gosto é eufemismo, pois os dois amavam música. Tanto que era a primeira opção dos dois para o vestibular. Corajosos, diga-se de passagem, mas até chegarem lá, decidiram fazer outra coisa.
- Vamos formar uma banda!
Quando o mais velho dos dois ganhou uma guitarra, o outro decidiu fazer o mesmo. E então começou a caça por outros membros. Eles colocaram um anúncio em diversos lugares do colégio, marcando data e local pro teste. Veio o dia, vieram os candidatos. E entra o primeiro:
- E aí, beleza?
- Tranqüilo. O que você toca sangue-bom?
- Xilofone.
- Xilofone? Acho que não colocamos isso no anúncio.
- Eu sei. Queria experimentar, sai um som legal. Faço até malabarismo com as baquetas!
- Ahn, claro. Toque alguma coisa aí, então.
- Bem, eu sei tocar Roberto Carlos.
Os dois amigos trocaram olhares significativos.
- Falamos com você depois. Pode ir.
- Mas eu nem toquei ainda.
- Já temos uma idéia do seu desempenho. E chame o próximo, por favor.
E entra o segundo:
- Que raio é isso aí, rapá?
- Isso aqui? É o meu instrumento, uma tuba.
- Tuba? Tinha essa parte no anúncio, instrumentos exóticos?
- Mas serve pra dar um peso no som da banda!
- Imaginei que um baixo servisse pra isso.
- Ah, esses instrumentos não estão com nada. A nova onda é ter instrumentos diversos, fugindo daquela formação de sempre, baixo, guitarra e bateria, tão ligados? É a nova moda!
Vale ressaltar que o cara da tuba tinha 59 anos, um moicano laranja, um terno roxo com gravata da mesma cor, e havaianas branco-pedreiro. Parecendo Arnaldo Antunes em seus piores dias.
- Então tá. Você toca?
- Aprendi a tocar quando estava na bandinha lá do colégio.
- Ok, mas você sabe tocar algo além do Hino Nacional?
- Err, posso aprender.
- Como quiser. Chame o próximo.
A criatura que vinha a seguir estava com um triângulo na mão, mas foi dispensado antes de entrar.
- Se fosse uma zabumba... você ficava com a guitarra, eu cantava e teríamos uma banda de forró!
O quarto candidato ia entrando com um instrumento... incomum.
- Essa é boa, uma bateria eletrônica. Não destoa muito do estilo que pedimos?
- Ninguém mais toca bateria normal hoje em dia, meu amor. É muita mão de obra, é pesada, além de desconfortável. Só mesmo aqueles bonitões fortões de bandas de metal pra tocarem naqueles kits gigantescos. Mas essa é mais gatinha, e serve pra tocar música eletrônica!
- Você é boiola, mermão?
- Boiola não, bem, é um termo muito pesado. Homossexual é mais apropriado.
- Eu mereço. Dois guitarristas homens e um baterista bicha. O que falta agora, aparecer um pianista cego? Ou um baixista que toca com os pés?
- Ai bofes, se vocês não me querem aqui, tô partindo a mil. Parti!
Após a audição “produtiva”, eles se perguntaram onde poderiam conseguir um baterista e um baixista.
- Será que o Souza toca aquela bateria do pai?
- Nem boto fé. Ele faz Dança, mas não tem coordenação nenhuma pra isso. Que dirá tocar bateria!
Mas procuraram o amigo mesmo assim. Quando bateram à porta, ouviram o rádio tocando uma valsa antiga. Bem alto. E encontraram o amigo tentando dançar com uma vassoura, com um livro à mão.
- Qual foi, Souza? Tá dançando ou limpando o chão?
- Não, gente. Tô vendo aqui se aprendo o básico da valsa!
- Ahn, achei que fosse só o dois-pra-lá-dois-pra-cá.
- É mais difícil que parece, tem que ter muita coordenação!
Os dois guitarristas se entreolharam, e saíram da casa sem dizer uma única palavra.
- De baixista, tem o irmão do Mauro, o Márcio. Vamos lá dar uma olhada.
Quando chegaram, ele não estava. Mas resolveram trocar uma idéia com a mãe dele.
- Tocar numa banda? Seria uma boa, ainda mais agora, que ele está se recuperando do acidente!
- Acidente, tia? O que foi que houve?
- Vocês não souberam? O Márcio sofreu um acidente, e caiu em cima das mãos. Mas ele está se recuperando aos poucos, mas como não consegue tocar baixo com as mãos, ele vem tocando com os pés! E tenho que dizer que ele está se saindo muito bem!
Mais uma vez, os dois se entreolharam, com uma expressão de derrota no rosto. Agradeceram e voltaram pra casa.
- Que boca que você tem, hein?
- Como é que eu ia saber, cacete?
- Deixa pra lá, amanhã é outro dia de audição, veremos se aparece alguém que preste.

Segundo dia da audição: um sujeito que perdeu a visão aos cinco anos, mas tocava piano perfeitamente, foi expulso aos gritos do estúdio pelos dois garotos. Também, foi o único, os dois pararam de atender os outros que vieram.

Três meses depois, surgia a banda “Os Irracionais” no circuito independente, com uma formação um tanto quanto incomum: duas guitarras, uma tuba e uma bateria eletrônica, tocada por um homem visivelmente homossexual, e muito habilidoso. Diferente? Sim, mas nem por isso ruim. Finalizaram a produção de um álbum e em breve estarão tocando pelos bares e casas de shows mais badaladas da cidade. Curiosamente, a banda fazia covers de Roberto Carlos, mas pararam quase que imediatamente assim que o xilofonista foi expulso.

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