sexta-feira, 14 de maio de 2010

Especial Dia das Mães!

E daí que está atrasado? Você só faz elogio à sua mãe no dia das mães? Dia de mãe é todo dia, pô!


Roberto não acreditou quando viu; ele achou que tivesse perdido na mudança. Era um álbum de fotografias de sua mãe, com várias fotos do arco da velha. Ele ficou alguns instantes olhando aquela preciosidade, e, involuntariamente, fechou os olhos com um sorriso nos lábios. Lembrava-se muito bem de sua mãe, muito embora tivesse falecido havia cinco anos. Por vezes Roberto se pegava pensando nela, e até mesmo chorava, mas aprendeu a lidar com isso. “Nunca crie raízes. Você nunca sabe como será o dia de amanhã, então cultive o desapego às pessoas e coisas. Afinal, nada é para sempre, não é?”, ela dizia. Foi uma das grandes lições que sua mãe lhe passara. “Pra ser sincero”, pensava ele, “ela me ensinou tanta coisa...”
Roberto foi folheando o álbum, vendo diversos momentos da vida de sua mãe. Aparentemente, ela havia juntado várias fotos de épocas diferentes em um só lugar, e a julgar pela primeira foto, aquele álbum não tinha menos que quarenta anos. “Não estou impressionado, ela sempre teve preguiça de procurar coisas por aí. Mas sempre teve cuidado para guardar as coisas, se duvidar, deve ter alguma conta de luz dela guardada por aqui! Gostaria de ter aprendido isso...”; ele olhou para trás e viu a cama completamente desfeita, o lençol no ventilador, os travesseiros nos cantos do quarto, com a aparência de que foram jogados com força, o colchão pendendo para fora da cama do casal, e alguns fios de cabelos, curtos e longos, espalhados. “Pelo menos a noite foi boa.” Ele continuou folheando, e parou numa foto em que ela estava junto a outros colegas de trabalho; parecia ser o primeiro dia de trabalho, ninguém tinha cabelo branco, alguns ainda tinham barba, e todos sorriam alegremente. “Se ela soubesse a cilada em que estava entrando... Tudo bem, não é pra tanto, mas trabalhar na parte contábil-administrativa de uma empresa era estressante. Ou ela chegava em casa cansada ou de mau humor. Ou os dois. Felizmente ela me ensinou que trabalho não se trata de dinheiro, mas sim de satisfação. O que vem depois é conseqüência. Também, depois da ameaça de me deserdar se fizesse a mesma área que ela, ficou mais fácil escolher...” Ele sorriu e continuou vendo as fotos.
Parou em uma com a qual se emocionou. Era uma em que Roberto, criança, estava no colo de sua mãe, numa praia deserta. Ele tinha se esquecido como sua mãe gostava de praia, a ponto de se recusar a morar no interior por causa disso. Era praticamente um hábito, todo domingo de manhã tinha praia. “Temos que ir cedo, praia fim de semana em Salvador é impraticável!”. Quando dava na telha, ia a algum lugar do litoral norte. É verdade, ela viajava bastante, pelo menos uma vez ao ano. “Viaje sempre, é bom para ter outra visão das coisas, saber como as pessoas vivem por aqui. E também para você perceber que não há lugar como o nosso lar!”, eram suas palavras sempre que desfazia as malas. Tanto que foi por causa dessa paixão por praia e por viagens que Roberto virou surfista, e viajava quase sempre. Isto é, antes de casar e virem os dois pentelhos que sua mulher chamava de filhos. “Puxaram à avó, na certa”.
Na foto seguinte, a família estava jogando sinuca, e a mãe de Roberto apontava o taco sugestivamente para a bunda de um tio. Ela sempre gostou de uma gaiatice. Tinha outra foto em que ela, na cozinha da antiga casa, preparava um prato, digamos, exótico: dois ovos e uma lingüiça. Detalhe que nessa foto ela já estava com uns 60 anos; ela perdia a vergonha, e não perdia a piada. Não que Roberto não gostasse. “Por pior que estivesse a situação, ela me ensinou a rir da vida; era o que nos restava quando não havia mais o que fazer. Felizmente, ela tinha um grande senso de humor... ou mesmo uma grande vontade de encher o saco de quem estava ao redor. Por vezes chegava a ser inconveniente. O problema é quando ela estava sem paciência...” Ele se lembrava claramente do dia em que ela pedira a um colega para lhe fazer um grande favor. A resposta dele, levemente sarcástica, foi: “Rapaz, não vou poder fazer isso, mas você, como uma hábil dona de casa e uma respeitável chefa de família, poderá dar conta do recado sozinha!” E a réplica: “Tenho que dar conta mesmo, com esse bando de maridos imprestáveis povoando o mundo! Nenhum dá conta de porra nenhuma!” Roberto se impressionava com a capacidade que sua mãe tinha de sempre ter uma resposta na ponta da língua.
Outra foto mostrava a mãe e ele, ainda pequeno, brincando com alguns blocos com letras. Se tinha algo que Roberto se orgulhava, era de ter aprendido a ler bastante cedo, e foi graças a coisas desse tipo. Ela ainda ficava exibindo o “filho inteligente que já nasceu lendo”, segundo a própria, com constantes idas ao supermercado, não para comprar, mas para ler os rótulos das coisas, com o propósito de impressionar quem passava perto. E, de fato, ela conseguia. Outro caso que ela gostava bastante de contar era sobre uma viagem que tinham feito pro norte do país, de ônibus; ele tinha no máximo uns seis anos. Como era época de eleição, a mãe incitava Roberto a ler as propagandas nos muros. “Vo-te em Jo-sé Ge-no-í-no”, “Fi-rmi-no Ma-ia pa-ra pre-fei-to”, “Jo-ão An-dra-de, ve-re-a-dor do po-vo” eram alguns exemplos, que ele lia devagar, mesmo sem saber exatamente o que significavam, e bem alto. Porém, teve um muro que tinha uma palavra, digamos, desvinculada do contexto político, e inserida num contexto obsceno. Mas Roberto, que sabia ler mas não sabia o que era contexto, recitou sem pudor: “BU-CE-TA”; o ônibus veio abaixo de tanta risada. E o garoto passou o resto da viagem passando por cima dos assentos, atendendo a pedidos para ler muros e outdoors.
E cada foto que ia passando, uma lembrança ia surgindo, momentos que ficaram registrados na sua memória. E Roberto ia se tocando da razão de sentir tanta falta de sua mãe: graças a ela, pôde se tornar um homem de verdade. Mais que isso, ela o ensinou que a vida toma o rumo que nossas escolhas apontam, e também a fazer escolhas certas. Até hoje ele se lembrava que queria seguir a área de Humanas na universidade, em especial o curso de Filosofia. Sua mãe, sabiamente, o incitou a tirar essa idéia da cabeça e a seguir um curso de engenharia. Hoje, ele trabalha como consultor de empresas, um pouco fora da área de formação, mas sua organização e facilidade de administrar financiamentos tributários - cujos rudimentos foram passados por sua mãe - o auxiliaram no caminho. Não por acaso, umas das últimas fotos era a da festa de formatura, com Roberto erguendo o - tão suado - canudo, com a família ao fundo fazendo um brinde, e a sua mãe, ao seu lado, chorando e com um papel, que era o resultado de um concurso público, em que Roberto tinha passado em segundo lugar, mas conseguira o emprego por causa de seu currículo, com recomendações das várias empresas em que estagiara. Tudo isso por conta de escolhas. “Ainda bem que ela me ensinou a fazer as escolhas certas.”
Foi então que ele ouviu um barulho vindo do quarto do casal; eram seus dois filhos, que tinham se jogado na cama e acordado a mãe, que brincava com o filho enquanto a filha passava o perfume que ambos tinham dado de presente de dia das mães. Ele não queria interromper o momento, então ficou observando pela fresta da porta. Sorrindo de leve. Roberto sabia que tinha escolhido a mulher certa para ele; podia ter seus ataques de ansiedade vez por outra e nem cozinhar tão bem, mas era muito inteligente, além de organizada e, por vezes, irônica. E depois da chegada dos filhos, ela estava um amor de pessoa. Claro, depois daquela fase pós-nascimento, que ninguém em casa conseguia dormir. Um dos ensinamentos mais valiosos que sua mãe passara, senão o mais importante, tinha sido: “trate bem as mulheres, seu puto! Se você não o fizer, no dia que ela acordar de mal com a vida, você será o primeiro a saber que mulher não se sacaneia! Trate-as bem, na medida do possível, e terá sua recompensa!” E ali estava sua recompensa, bem em cima da cama. Uma mulher que ele amava e que o amava de volta. Se tivesse que terminar, paciência. Por ora, estava tudo perfeito. Isso tudo graças à sua mãe. E Roberto pensou: “não comprei um presente para ela... mas farei algo que ela gostará, com certeza, que minha mãe certamente aprovaria! Vou escrever um texto de homenagem! Nada mais apropriado, estou meio sem dinheiro esses tempos! Acho que vou falar sobre hoje, achando esse álbum de fotografias mais cedo...”

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