Aqui está o que deveria ter sido o primeiro texto do ano! Sei que está meio grande, façam um esforço pra ler! Enjoy!
Réveillon na praia, numa capital qualquer
Era aquele caso típico: família pequena na casa de outra família pequena; no caso, eu, a patroa e a patroa-mãe, e um casal. Como boas visitas, não avisamos que íamos, mas chegamos cedo, pra fazer uma média, muito embora o fechamento da avenida principal fosse o principal motivo para nossa pontualidade. Tanto faz. Levamos a marmita pra comer por lá, ou como eles chamam, "ceia"; por sinal, a primeira vez que ouço alguém falar 'ceia' na minha frente, achei que só faziam isso em Senhor dos Anéis. Como pretendíamos passar a noite por lá mesmo, terminamos por levar algumas sacolas com roupas, e alguns colchonetes. Se, em vez do carro, tivéssemos uma caminhonete e uma penca de crianças lotando-a, passaríamos por bóias-frias recém chegados do interior. Enfim.
O casal era conhecido nosso, das antigas. Mas devo dizer que a visão do marido ainda impressionava. Um armário negro de dois metros de altura - e largura. Bastante simpático por sinal, embora não soubesse brincar. Dei um soco de brincadeira no braço dele, só pra receber outro cinco vezes mais forte de volta. Temi pelo meu braço, ou o que sobrou dele, naquele momento. Ainda estava cedo, o que significa que teríamos que matar tempo até a comemoração. TV ligada é uma perdição à uma hora dessas, o que significa que tivemos que assistir... novela. Pior, DUAS novelas, que pareciam não terminar nunca. Achei que estaríamos no ano novo quando chegassem ao fim. Mas a pior parte mesmo é que eu estava começando a gostar da novela das sete. Mas foi só os primeiros acordes do 'Show da Virada' começarem a tocar, que cheguei ao meu limite. "VAMBORA PRA RUA, CAMBADA!"
Então descemos. Já que o valor das pernas ali devia passar de um milhão, em razão das inúmeras idas ao médico e cirurgias, todas estavam de sandália rasteira. Não tinha porque fazer esse comentário, mas é porque eu me divertia vendo os projetos de madame se equilibrando em cima de plataformas acima de 10 centímetros. Eu não devia rir, mas uma realmente caiu. E pior, bem em cima do namorado trinta centímetros menor que ela. Que deprimente. À primeira vista, fiquei feliz, só gringa, situação comparável ao Carnaval. Tá, exagero. Fomos olhar a praia, parecia um formigueiro que jogaram mel. Em bom português, cheio pra caralho. E isso na água, na areia nem comento. Mas, afinal, era bom conseguirmos um lugar pra sentar, de outra forma seríamos levados pela multidão. E falando na multidão, à medida que andávamos, ia progressivamente ficando mais feia. Parecia que uma favela tinha descido em peso pra cair no mar no ano-novo. Teve um momento que me senti como Castro Alves em Navio Negreiro: "Era um sonho dantesco/(...)/Dizei-me vós, Senhor Deus!/Se é loucura... se é verdade/Tanto horror perante os céus?!".
Fui arranjar um lugar pro pessoal sentar. Tinha um lugar próximo na calçada próximo à areia. Seria excelente não fossem aquela vista auspiciosa dos banheiros biológicos ali ao lado, mas felizmente o vento estava ao nosso favor. Quem trabalha manuseando esses poços de perdição devia ser homenageado em praça pública, como um macho de verdade, mesmo que fosse mulher. Dei a desculpa que ia encontrar um conhecido, e saí andando pela avenida. Muito provavelmente encontraria algum conhecido ali, nunca levamos a sério até que vemos a pessoa. E geralmente nunca é alguém que queremos encontrar na noite antes do ano-novo. De qualquer forma, era engraçado ver os casais insólitos que apareciam à minha frente. Por exemplo, um gringo desorientado junto a um espécime local. Notei que o gringo estava visivelmente pouco à vontade, desorientado, arrumado para jogar críquete e olhos tão azuis que você poderia pensar que são lentes de contato com defeito de fabricação, e sua acompanhante era a sua antítese, a começar pela cor da pele. Era tão negra que, se você estivesse num quarto escuro com ela, você a distinguiria porque daria pra ver um vulto mais escuro que o próprio escuro, se é que vocês me entendem. Estava sorrindo, e não era exatamente agradável de ver, já em cada extremo havia um dente. E, obviamente, nenhum outro entre eles, o que você poderia chamar de Sorriso 1001. Não me entendam mal, não é sacanagem só porque a coitada é negra. Mas porque era feia pra burro. Chegava a dar pena do gringo.
Continuei andando. De repente, a mala de um carro abriu revelando um potente sistema de som, que muito provavelmente não tocaria música clássica. Mas qual não foi a minha surpresa ao ouvir a Sonata ao Luar de Beethoven vinda do carro? Só não fiquei surpreso quando o pessoal ao redor começou a virar o carro, e o motorista rolando de rir, só pra colocar uma música de baixo calão sociológico pra tocar. Fiquei mais tranqüilo; aquilo sim era normal, embora fosse uma bosta, no fim das contas. Mas senti a desaprovação no meu olhar quando o pessoal começou a... dançar, na falta de um adjetivo melhor. Com aquele rebolado, Elvis decidamente ficaria envergonhado. Só aqui mesmo pra ter essas coisas.
Mais à frente, mais gringos. Dessa vez, um casal, cujo português aparentemente se limitava a 'pagode' e 'fogos artifício'. Pelo inglês sofrível e por algumas frases sem sentido, deviam ser alemães. Arrisquei um "Aus dem Land der Führer?", só pra ver a mulher me mostrar o dedo e o homem lançar impropérios sem sentido. Sim, eram alemães. Afastei-me com um meio sorriso.
Resolvi voltar, quase podia sentir o casal de alemães bufando no meu pescoço. Tinha um posto de gasolina ali perto (devidamente barricado, pra evitar ataques/saques de engraçadinhos), resolvi parar ali pra comprar uma coca. Entre mortos, feridos e bêbados - com predominância dos últimos - tinham alguns moleques, um pouco mais jovens que eu, enchendo a cara, e sobressaltados, porque olhavam toda hora para os lados; deviam estar preocupados com os pais, quem sabe? Entre eles, estava uma menina, guria mesmo, nem peito formado tinha ainda, com uma garrafa de Smirnoff na mão. Não a Ice, a vodka mesmo. A julgar pelo seu comportamento exuberante e sua fala embolada, ela ia virar o ano recebendo glicose. Até pensei em pedir uma dose, mas era melhor manter minha dignidade. Mentira, os pais dela chegaram nesse momento, e enquanto a mãe se acabava de chorar pela filhinha santa que supostamente nunca tinha colocado uma gota de álcool na boca (conta outra), o pai pegou a garrafa e a jogou alucinadamente para trás.
Enquanto essa fazia um arco perfeito no ar, uma multidão de mendigos, surgidos Deus sabe de onde, começou a se juntar no provável lugar que cairia. Entretanto, o destino pode ser bem cruel vez ou outra, já que uma pomba bateu na garrafa e esta caiu nas mãos de um homem mirrado que estava segurando seu champanhe. Foi uma cena insólita, porém cômica, ver os mendigos voando em cima do coitado. Estava engraçado até o sujeito correr na minha direção e me entregar a vodka. No momento que vi aquela multidão crescente de mendigos vir ao meu encontro, pulei o muro que separava a calçada da areia, joguei a garrafa lá longe no mar, e saí correndo. Quando achei que já tinha uma distância segura, olhei para trás. O que tinha de mendigo pulando o mesmo muro que eu - que, percebi agora, tinha bem uns dois metros de altura; o que o desespero não faz -, enfiando a cara na areia, e nadando na direção que eu tinha jogado a garrafa. Só podia esperar que Iemanjá não considerasse aquilo como uma oferenda.
O ano estava acabando, era melhor voltar pra encontrar o pessoal. Desviei de umas duas tampas prematuras no caminho, mas encontrei o povo. E, ao lado deles, na calçada, visualizo um par, digamos, um tanto quanto íntimo. Nada demais, mas visivelmente eram dois homossexuais. Não me importava que eles estivessem ali, mas para quem cresceu ouvindo que homem só gosta de mulher e vice-versa, e tudo o que não fosse isso era, hã, errado. Lógico que não é assim que a coisa funciona, mas enfim... tão somente virei o rosto e fiquei olhando a calçada. O pior é que tinha um homem olhando fixamente pros dois; sua expressão estava entre o divertido e o enojado. E ainda olhou pra mim, rindo. Tive que rir também, a cara do homem estava cômica. É engraçado como ainda existem preconceitos como esse hoje em dia. A julgar pelo olhar do cara, ele devia ser do interior, nunca deve ter visto algo do tipo. Ao menos, não tão escancarado. Só tive certeza que o cabra era mesmo do interior quando ele gritou: "Num tem Caninha da Roça nessa porra não?".
Sentei na calçada, faltavam dez minutos pra meia-noite. Ela tinha tentado abrir o plástico, sem sucesso, e me passou. Mas consegui tirá-lo, só que não podia tirar a fio de metal sobre a tampa, o que resultou na mesma voando na cara de minha mãe. Mas após um gancho de direita (dela), a situação se acalmou. Cinco minutos. Desci para a praia, devaneando.
Era engraçado como todas aquelas pessoas ali, e outras tantas deixavam suas rotinas de lado por um dia, faziam planos e promessas - que eventualmente não seriam cumpridos, em sua maioria - para um novo ano que entrava. Talvez me falte um tanto de sensibilidade, ou compreensão, mas pra mim não fazia diferença, era apenas um dia após o outro, com o sol nascendo no dia seguinte como todos os outros, sem essa real necessidade de tanto alarde. Mas também fico pensando como as pessoas deixam todas as discussões, pendências, e festejam por uma noite inteira como se não houvesse problemas a resolver. Idiotas, porém felizes. Mas felizmente, só existe um réveillon por ano. Mas talvez as pessoas precisem mesmo dessa mentalidade mais fresca, mais tranqüila, mais vezes no ano. Olhei para as estrelas e me virei para encarar as pessoas na areia e na calçada logo atrás, enquanto os fogos explodiam logo atrás. É... é bom que as pessoas se sintam idiotas, porém felizes, nem que seja por uma única noite no ano. Sei lá.
Nesse momento, apareceu uma senhora distribuindo rosas; ela me ofereceu uma e foi embora. Olhei pra flor naquele momento, e fui me lembrando de todos com quem dividi meu ano. Só podia esperar que o ano fosse tão bom para eles quanto seria para mim. Sim, tenho certeza que o ano seria bom, era esperar pra ver. Joguei a rosa no mar, sem saber exatamente pra que aquilo servia. Talvez fosse melhor fazer isso, dona Iemanjá talvez ficasse mais feliz com uma rosa do que com um bando de mendigos. É, é isso aí.
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