sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Segunda parte do guia novelístico!


- No início, um contraste ente o mocinho e a mocinha é imprescindível. É fundamental colocá-la como uma pessoa desprovida de recursos materiais, com uma vida difícil, e que precisa sustentar a família e o cachorro que vive com eles (outro personagem bastante comum). Já o mocinho precisa ser um cara rico e infeliz, que está noivando com uma perua;
- Falando no cachorro, é interessante colocá-lo como um personagem esporádico, mas essencial em momentos-chave. Uma possibilidade é o primeiro encontro entre o mocinho e a mocinha; ela está passeando com o animal (o cachorro) pelo parque, com o diálogo: “Ai Bitola, como a vida está difícil” (sim, ele precisa ter um nome babaca, nessa linha), ao mesmo tempo em que o mocinho passeia com a vilã da novela, com quem está noivando. Aí, o cachorro avista este casal insólito, e sai correndo para morder a perna da vilã. Após o momento de confusão, os olhares dos mocinhos se cruzam pela primeira vez, com direito a close no rosto e brilho nos olhos. São em situações assim que o cachorro deve estar presente. Vale ressaltar que ele deve ser mais esperto que muita gente na novela inteira, e exatamente por isso deve ser deixado em segundo plano;
- O nome da mocinha também é algo essencial. É uma boa chamá-la de Maria-alguma-coisa, como Maria Aparecida, Maria do Bairro, Maria Esperança, Maria da Penha... Uma inovada de vez em quando não seria nada mal, como Marisol;
- Se porventura você tiver pouca audiência no meio da novela, mate algum personagem próximo dos principais, como o pai ou a mãe do mocinho, para dar um drama a mais, ou então coloque a mocinha de cama, sob o pretexto de ter pegado uma doença rara e incurável. Só não se esqueça de curá-la umas duas semanas depois;
- Sempre tem um personagem engraçadinho no início da novela, que normalmente é próximo da mocinha. Pode ser tanto o padeiro como o dono da mercearia que vendem fiado porque ela era bonitinha. Se for o caso, mate-o mais para o meio da novela (na dúvida, o Paco é um ótimo quebra-galho pra essas horas), para a mocinha ficar de luto e não ter a quem pedir fiado;
- As crianças são um assunto um tanto quanto melindroso. Dependendo do horário de sua novela, coloque-as como principais ou coadjuvantes. Sendo uma novela das 4, que só avós e empregadas domésticas assistem, coloque os guris na escola, e a personagem principal sendo a professora, que, eventualmente, pode ser assediada pelo diretor, mas que acaba tendo um romance com o pai do líder dos moleques. Se tiver que trocar um personagem nesse tipo de novela, faça-o com aviso prévio, e com diferenças sutis, não abruptamente e um ator que não tenha nada a ver com o anterior. Isso costuma acontecer com os zeladores da escola. Entretanto, se a novela for depois das 6 e meia, coloque as crianças como sub-coadjuvantes, para que não encham muito o saco;
- Uma situação de enredo que você pode usar é aquela história de os pais da mocinha estar desaparecidos no início da novela, aparentemente mortos. Aparentemente, lógico. Mas há uma restrição: só um dos dois pode aparecer, senão seria muito melodrama para o horário nobre. Se optar pela mãe, esta aparecerá no meio da novela, ajudando a filha e dizendo: “Eu já te vi em algum lugar...”, e ela só diz o que todos já sabem à mocinha, a única ignorante, que ela é a mãe que desapareceu anos atrás. Ressaltando que ela só o faz quando vê que pode ser sustentada pela filha. Se escolher o pai, coloque-o como um cara que perdeu a memória e trabalha como marinheiro no porto ou então como mordomo na casa do mocinho rico. E ele também diz “Eu já te vi em algum lugar...” mesmo tendo perdido a memória. A mãe costuma ser mais popular. E a cena do reencontro deve ser desnecessariamente emocionante, pra dar bastante audiência;
- Outra situação do tipo é a troca de bebês na maternidade logo no início. É aquela história: o casal rico tem uma filha, ao mesmo tempo em que o casal humilde também dá à luz uma filha. Sim, inexplicavelmente eles fazem uso do mesmo hospital. Aí, devido a um problema com a triagem dos recém-nascidos, as meninas vão para um casal diferente cada uma. E, depois, ninguém questiona de os pais ricos e loiros criarem uma filha morena, e vice-versa. A revelação naturalmente só aparece no último episódio;

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